21 Fevereiro 2010

Como um simples bife de atum pode contar uma história

Pode não ser um peixe que se coma todos os dias mas todos conhecem o atum. Podem ainda não ter provado o espinhaço, as peles ou a barriga mas de certeza que, pelo menos, já o provaram em conserva. Mas provavelmente desconhecem que a pesca do atum foi uma das fontes de riqueza que mais contribuiu para a prosperidade económica da cidade de Tavira e da região do Algarve, dando trabalho e pão a inúmeras famílias de pescadores.

Proponho que recuemos um pouco no tempo e façamos uma curta viagem à história da pesca do atum e do Arraial Ferreira Neto.

Chamavam-lhe a tourada do mar. Um espectáculo de força e movimento, envolvido com o baloiçar dos barcos, a rudez do atum e a algazarra dos homens que dedicavam toda a sua força e agilidade a esta arte, repetindo gestos que culminavam no copejo, o momento em que o atum apanhado nas redes era arpoado.

A armação medo das cascas existia desde 1881 em Cabanas de Tavira mas viria a instalar-se definitivamente em Tavira em Abril de 1945 com o nome de Arraial Ferreira Neto.

O Arraial surge assim como uma “aldeia” de gentes do mar, de linhas rústico-portuguesas, onde habitavam entre 400 a 500 pessoas. Local de migração sazonal, entre Março e Setembro, era ali que durante a faina pescadores e famílias viviam e cuidavam nas oficinas dos materiais e apetrechos essências a esta pesca, sendo-lhes fornecido tudo o que precisavam para a vida quotidiana

Para além das habitações o Arraial Ferreira Neto compreendia ainda armazéns de recolha e restauro de material, escritórios, depósitos de viveres, padaria, escola primária, capela, posto médico e barbearia.

A armação (grande conjunto de redes que estavam verticalmente suspensas na água, da superfície ao fundo e que formavam uma barreira) era uma verdadeira obra de engenharia náutica que se montava longe da costa e envolvia cerca de 23 embarcações, quilómetros de redes e milhares de bóias e era composta por corpo da armação, guia e rabeira.

A barreira era assim formada e orientava-se em relação à linha da costa e à marcha do atum de modo a detê-lo e a encaminhá-lo para um compartimento que se situava a meio da estrutura onde viria a ser capturado.

Aos poucos o peixe ia sendo filtrado pela larga rede da rabeira até chegar à fina do copo e era aqui que o atum chegava à armadilha final e se dava o momento do copejo, a fase mais fascinante de toda a faina. A água agitava-se, as barcas de testa fechavam as portas e a rede era levantada devagar apertando o atum. Os homens armados de um gancho comprido, o bicheiro, espetavam o peixe e puxavam-no para os barcos.

Terminada a faina a companha regressava ao Arraial. No mastro da torre de vigia içavam-se as bandeiras que indicavam, em centos, as quantidades aproximadas do peixe capturado, conforme o vigia ia avistando os barcos carregados de peixe. E daqui o peixe seguia para a lota onde chegou a ser vendido a quatro escudos o quilo.

No ano de 1881 as armações do Barril e Medo das Cascas pescaram respectivamente 46.825 e 40.729 atuns, de direito e de revés.

Mas um dia o peixe fugiu da costa e as armações foram desaparecendo. Em 1972 montou-se pela última vez a armação, cessando nesse mesmo ano.
O Arraial Ferreira Neto fechou as suas portas e assim permaneceu durante anos, encerrando em si vestígios e histórias de uma arte que se perdeu no tempo e que deixou marcas na história económica e social do Algarve.


E foi apenas no ano 2000 que o Arraial Ferreira Neto ganhou nova vida. A sua estrutura deu vida ao actual Hotel Vila Galé Albacora que recuperou a sua estrutura e traça original e se integrou harmoniosamente com a sua envolvente natural, em pleno Parque Natural da Ria Formosa.

Dos armazéns recriaram-se quartos, a escola primária deu corpo a um clube de crianças, a capela foi restaurada e preparada para receber eventos e a padaria transformou-se em museu. É aqui que vai poder ver de perto uma maquete que ilustra na perfeição a grande obra de engenharia que era a armação do atum. De igual forma poderá observar documentos centenários da Companhia de Pescarias do Algarve e ainda um vídeo que retrata todo o processo de captura dos tunídeos.
Aqui nada foi deixado ao acaso e até a gastronomia se recria em pratos típicos algarvios, muitos deles tendo o atum como base.

Para quem não conhece aqui fica a sugestão para um fim-de-semana diferente, em contacto com a natureza pura e a história viva!

E como este post coincide com a reabertura do Hotel Vila Galé Albacora - Arraial Ferreira Neto, o Figo Lampo associou-se ao evento e vai ser sortear entre os comentadores deste post um fim-de-semana para duas pessoas neste hotel. O passatempo decorre até ao final do dia 23 deste mês, sendo considerados todos os comentários deixados até essa data (um comentário por pessoa).

E agora, sem mais conversas, deixo-vos uma receita que mesmo sendo muito simples, deixa-me sempre a boa lembrança da tourada do mar..


Bifes de atum de cebolada

Ingredientes (para e pessoas): 2 bifes de atum fresco, 2 cebolas, 3 dentes de alho, 2 folhas de louro, salsa, azeite e sal e pimenta preta q.b.

(T): Tempere os bifes com sal, pimenta, louro e os dentes de alho cortados em rodelas e deixe marinar durante algumas horas.
Escorra-os depois e leve-os a fritar no azeite, de ambos os lados. Retire-os para um prato e junte ao azeite a cebola em rodelas finas. Quando a cebola estiver translúcida, introduza os bifes de atum de novo deixe cozinhar mais uns minutos de um lado e do outro. Rectifique os temperos e polvilhe com salsa picada finamente. Sirva de imediato com batata cozida.



Notas:
- O vencedor do passatempo será anunciado no próximo post do Figo Lampo;

- O prémio é uma cortesia do Hotel Vila Galé Albacora;
- Foto da pesca do atum do arquivo do Hotel.

35 comentários:

  1. Que bela iniciativa :) Quanto à receita, parece-me excelente! É complicado de arranjar por aqui...:\ bjinhos e bom Domingo

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  2. Parece-me uma boa altura para comentar pela primeira vez num blog que volta e meia venho espreitar! :)

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  3. Há muito tempo que gosto deste bife de atum, ou não fosse eu, algarvia, embora do lado barlavento. Bem feito, sem excesso de gordura é um belo petisto. Um suculento bife! Pena que tenha acabado essa pesca artesanal de atum, tão típica. Como é agora? Consta que o atum é uma espécie em vias de extinção aí nessa costa algarvia. Está a ser excessivamente pescado para ser usado no suchi. Os japoneses vêm cá buscá-lo.

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  4. Confesso que cheguei aqui por acaso, pelos irresistíveis lollipops de morango, mas já fiquei fã e desejoso de experimentar estes bifinhos. Felicidades. R.

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  5. os bifes de atum são um dos pratos incontornáveis em casa da minha sogra na Madeira. Não adoro, mas gosto.
    Já o Alabacora, foi «graças» a ele que se proporcionou conhecer-nos pessoalmente. Gosto e recomendo!!
    Beijinhos

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  6. K delicia :).. Provei há pouco tempo bife de atum e é óptimo..
    bjinhus e bom domingo

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  7. Ainda venho a tempo?
    Tenho o hábito de cuscar e experimentar as suas receitas, nunca comentei,aproveitei esta opurtunidade para o fazer.
    Achei interessante esta resenha sobre o atum, é sempre bom sabermos mais sobre o nosso país e eu (que já passei férias em Tavira)não fazia ideia sobre o contributo do atum na economia e costumes do nosso povo.
    Isabel Cristina

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  8. Adorei a história sobre a pesca de atum. É tão interessante saber mais acerca da nossa cultura. Só é pena é que certas coisas tenham desaparecido com o tempo.
    Quanto à receita, não há nada que me lembre mais as férias do quem um bife de atum fresco de cebolada.

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  9. Olá Margarida :)
    Adorei a tua publicação. É uma autêntica preservação da memória de uma actividade que foi importantíssima no Algrave e uma homenagem aos pescadores de atum e à sua vida dura! Fui espreitar o link e achei o complexo muito interessante e que felizmente o grupo hoteleiro soube preservar exemplarmente, dando uma nova vida ao arraial e tornando-o num atractivo pólo cultural.
    Deixa-me que te diga também que essa posta de atum está irresisistivelmente atrativa e suculenta!
    beijinho.

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  10. Gostei de muito de ler este relato, a acompanhar a receita. É bom lembrar que são vidas duras que nos proporcionam os alimentos que comemos. Quantas "lutas" travam diariamente os pescadores com o mar? condições de trabalho difíceis, parco retorno, perigo constante...Parabéns pela iniciativa.
    Babette

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  11. Amiga, que post fantástico.
    e ainda por cima com direito a prémio e tudo!

    Lembro-me muito bem de quando fui ``a Madeira e vi no mercado central os atuns inteiros, enormes, aquilo impressionou-me imenso.
    Era miúda e para mim, habituada a ver o atum na lata, imaginava que fosse um peixe pequeno...

    Que deliciosa história e receita aqui partilhas connosco.
    :)

    Beijinhos. rico Algarve é este que nos mostras. :)

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  12. Olha, ontem foi o meu jantar a mesma receita mas com uma posta de tubarão.
    A textura é muito identica ao do bife de atum de que gosto muito!!
    Bjos grandes

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  13. Margarida,

    Em primeiro lugar deixa-me felicitar-te pelo lindo texto que escreves-te sobre a pesca do atum. Já sabia uma boa parte da história, mas não conhecia alguns pormenores que aqui descreves. É muito bom sentir o empenho e carinho (como algarvia que sou) que pões em divulgar a gastronomia algarvia e as histórias por detrás de algumas das receitas. Realmente esta parte da história da bela cidade de Tavira é super interessante assim como muitas outras. Não fosse a cidade de Tavira uma das cidades com mais história do país.
    Adoro comer o atum fresco da maneira que dizes, e para mim é uma das melhores depois do atum fresco entomatado.

    Beijinhos

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  14. A pesca, no seu todo, foi durante muito tempo o sustento e o modo de vida português... É fantástico como é a nossa cultura! :D

    Bife de atum, simples, com essa cebolada! É sem dúvida como mais gosto! :)

    Um beijinho*

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  15. excelente nome o do hotel uma vez que , para quem não saiba , albacora é um tunídio . e os tunídios devem ser das maiores famílias que por aí há .
    como nota de rodapé , temo que falte um vinho branco na marinada

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  16. Que grande oferta!
    A primeira vez que comi atum foi na Madeira e não fiquei fã, vi á tempos na Tv o programa entre pratos no Algarve e as receitas eram feitas com atum e tinham excelente aspecto, comprei e gostei, só tenho pena é que aqui seja tão caro.
    Bjs

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  17. Parabéns.
    Este post relata de forma simples e esclarecedora, a história do atum.

    A receita é fantástica.
    Tenho no meu blog uma receita idêntica.
    É uma refeição muito saborosa.

    http://asvezescozinheira.blogspot.com

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  18. Olá.

    Brilhante blog, tudo que fazes tem um aspecto delicioso!

    adoro bifes de atum, mas é a única parte que gosto!


    deve ser uma delicia!


    *

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  19. por acaso acho qu so vi atum fresco aqui na minha zona uma vez e no verão quando tive em olhao
    adorei conhecer a historia do atum.
    e gosto tanto este prato esta simples e bem bom
    beijinhos

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  20. Fantástico, só tu Margarida para nos trazeres um pouco de história, uma receita e ainda por cima um prémio!

    Quando vou a Tavira a minha praia favorita é a praia do Barril, onde se pode ver as ancoras na areia, dos barcos que andavam á pesca do atum.É essa praia tem um encanto muito especial,pois ao contrário de algumas pessoas, eu gosto de fazer o trajecto a pé e não no comboio.
    Quanto ao bife, deve estar muito bom.

    Bjs

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  21. Margarida,

    o relato não podia estar melhor, tenho conheçimento da história e mais ou menos acompanhei a reconstrução para Vila Galé Albacora.
    Do atum já o conheço desde pequenina pois é igualmente típico dos Açores de onde as minhas costelas são naturais.

    Um boa semaninha,

    Pi

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  22. Sabes que o meu bisavô tinha 1 fábrica em V.R.S.A? quando por lá também se vivia da pesca do atum.... enfim.... longa história :)

    Não sabia q o Albacora tinha estado fechado, já lá estive e gostei muito!

    Beijinhos,
    Carlota

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  23. Alô...
    Pois é, foi ao fazer o meu trabalho de final de curso, sobre a gastronomia de Tavira que cheguei ao museu do Albacora, e não é que descobri uma fotografia do meu avô???

    Amei, mesmo!!!

    Beijocas muito grandes linda :)

    P.S - Não é a mesma coisa que encontrar fresquinho, mas em sitios como Modelo, Continente, Mini Preço, etc, etc, encontra-se bifes de atum congelados... não é a mesma coisa, mas para quem não tem fresco, lá tem que ser!!!

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  24. O que um bife de atum pode fazer :) parabéns é uma bela iniciativa.
    Adoro bife de atum, mas faço muito poucas vezes. O teu está simples mas como sempre de aspecto muito apetitoso.
    Gostei muito de ler sobre os costumes da pesca do atum que conhecia muito vagamente.
    Bjs
    Moira

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  25. A história está bem narrada e é sempre bom dar a conhecer os nossos costumes!!!!!!Quanto ao bifinho não como faz tempo, está mesmo apetitoso, bjs.

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  26. Só provei do enlatado mas tenho uma imensa curiosidade de provar o fresco! Tem mesmo bom aspecto, ainda por cima gosto muito de cebolada :)

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  27. Impossível pensar no Arraial Ferreira Neto e não me lembrar de ti e dos (quantos?) p´raí 300 trabalhos que fizeste sobre o dito ;)

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  28. Adorei o teu post. Praticamente só como atum fresco no Algarve, em Santa Luzia.

    Beijinhos

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  29. Que receita e comentários maravilhosos!!

    Adoro atum fresco, é uma maravilha!!

    Bjinhos e obrigada pela partilha

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  30. Quando eu era pequena o meu pai comprou um atum inteiro. Apanhei um susto enorme ao ver "tamanho" bicho em cima do lava loiça. durante muito tempo tive medo de tomar banho no mar, imaginava sempre o Atum ao meu lado...

    Rosário

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  31. Quando era novita ainda tive oportunidade de la ir passar um fim-de-semana com os meus pais, enquanto Arraial Ferreira Neto, mas ja a minha tia passava la todos os Verões pois o pai trabalhava la. Era o responsavel pelo escritorio e toda a papelada referente ao Arraial, enquanto ele trabalhava ela ouvia as mais belas historias contadas pelos pescadores acabados de chegar. Quanto ao Hotel não o conheço, mas ja o Arraial era maravilhoso.
    CV

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  32. Parabéns, Margarida, por esta extraordinária "Lição de História"! Obrigada por nos teres trazido estas memórias, desconhecidas para tantos de nós. Era uma saga, esta da pesca do atum! Acho que a primeira vez que a ouvi, ou melhor que a li, foi num dos antigos livros da Instrução Primária de antigamente, pois sou desse tempo. No ano passado, ao visitar os meus filhos e nètinhos em San Diego, num Museu da Califórnia, lá estava a homenagem do povo americano a um Arrais português que se celebrizou na pesca ao atum. Os nossos Pescadores, tanto do atum como os do bacalhau, para mim são uns heróis anónimos aos quais devemos uma GRANDE HOMENAGEM!
    Mais uma vez, obrigada, Margarida. Bjs. Bombom

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  33. QUE DELICIA DEVE SER NUNCA PROVEI!

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  34. Obrigada a todos os que participaram. De alguma forma tenho uma grande ligação emocional ao Arraial Ferreira Neto e á pesca do atum. Durante a minha licenciatura quase todos os trabalhos que fiz foram sobre este tema como referiu a Carolina (minha ex colega de curso). Assisti de perto à transformação do Arraial em Hotel VG Albacora e desde aí que também mantenho uma boa relação com a direcção.
    Daí a publicação deste post. Agradeço a todos amis uma vez. O sorteio não incluiu a Bombom nem a Belita pelo facto dos seus comentários terem sido feitos já no dia 24. Fica para a próxima. : )
    À Gasparzinha, os meus parabéns! Espero que gostes.
    beijinhos a todos

    *Diogo, nesta forma de preparar o bife de atum não costumo usar o vinho branco. Uso-o sim nesta outra receita
    http://figolampo.blogspot.com/search/label/Peixe%20e%20marisco?updated-max=2008-10-06T23%3A43%3A00%2B02%3A00&max-results=20

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  35. Olá Margarida
    Adorei lêr o teu post acerca do Arraial.
    O meu pai fala sempre do seu tempo de infancia aquando passava meses vivendo no Arraial pois o meu avô era pescador de atum.
    Prestas uma homenagem muito bonita á tua terra.
    Sei que o Arraial depois se converteu em Hotel, pois quando vou á Ilha vejo-o ao passar de barco.
    Excelente trabalho x

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